Estava na fila gigantesca da Livraria Saraiva pra comprar o livro de estréia da Fernanda Torres, quando de repente começa a tocar Wannabe, primeiro hit das Spice Girls, praticamente um hino da década de 90. Impossível esquecer de quando eu tinha lá meus quatro anos de idade, pintosinha, dançando Wannabe aos pulos sobre a cama, usando meias nos braços como luvas, e com uma camiseta pendurada na cabeça pra fingir de cabelo longo.
Atrás de mim na fila estava uma moça que eu chutaria estar atravessando a fase dos trinta anos.
"Nossa, que música nova, hein!", ela disse numa gargalhada.
Virei pra ela me dobrando de rir com o comentário.
Não porque a música era realmente velha, mas porque mesmo depois de todos esses anos, eu ainda escuto Spice Girls no repeat como se as meninas ainda estivessem no auge da carreira.
P.S.: Dei uma olhada no google pra ver se achava foto de alguma das Spice Girls usando luvas longas e não achei NENHUMA. Por algum motivo que desconheço, dançar Wannabe usando meias nos braços fazia mais sentido quando eu era criança.
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27 de jan. de 2014
22 de mar. de 2013
Aquele em que só Jesus salva
Natália Klein uma vez disse "Todo medo, no fundo, está atrelado ao medo da morte" e eu guardei essa frase comigo para sempre porque fazia todo o sentido. Comprovei a teoria hoje voltando pra casa depois do estágio. Ao pegar o ônibus e passar pela roleta o cobrador me disse:
"Bom dia."
"Bom dia", retribuí.
Bom dia. Normal. Pessoas falam bom dia uma às outras no cotidiano o tempo todo, mas não parou por aí. Pensando que o colchete das normas básicas da educação social já havia se fechado, eu continuei meu caminho à procura de um lugar aconchegante que não estivesse pingando água de ar-condicionado de ônibus com defeito, mas o cobrador chama a minha atenção de volta.
"Ei!"
"Oi?"
"Só Jesus salva, hein!"
Momento estranho em que o cobrador fala pra você que só Jesus pra te salvar. Deduções de uma mente desiquilibrada começa a funcionar a todo o vapor. Obviamente as roupas que eu tinha escolhido no dia gritavam minha orientação sexual e o cobrador cristão resolveu aproveitar essa oportunidade certeira de repassar a palavra de Jesus para um pobre garoto mundano. Não, obrigada. Corri discretamente para o primeiro assento do ônibus, o mais longe possível do cristão freak.
Mas.
Ele.
Veio.
Atrás.
De.
Mim.
"Aceita Jesus", ele me disse. "Aceita Jesus nosso senhor no seu coração. Jesus te ama! JESUS TE AMA! Só ele salva, só ele! Jesus Salvador. Salvador!"
Creepy total. Ele dizia tudo tão pertinho de mim que eu sentia até a respiração dele. Pensei, fodeu. Me caguei todo. Não tinha NINGUÉM no ônibus, nenhuma testemunha, só eu, ele e o motorista. Estava cedo e as pessoas estavam vindo trabalhar, não voltando pra casa, era meu dia de sair cedo do trabalho. Fodeu, cristão cobrador homofóbico vai me matar, esquartejar e guardar os pedacinhos em sacos de lixo preto no bagageiro do ônibus e o motorista comparsa, também homofóbico, vai acobertar o crime. Pensei. Eu já conseguia visualizar o homicídio estampado na capa do jornal e minha mãe chorando no Balanço Geral do Wagner Montes pedindo justiça. Imagina a derrota? Assassinado por cobrador de ônibus? Ah não.
Só me tranquilizei quando outras pessoas começaram a subir no ônibus e ele passou a me esquecer e mirar sua atenção nelas.
"ACEITA JESUS, ACEITA! JÁ ACEITOU?"
Ninguém escapava, nem os camelôs, vendendo o docinho e o amendoim de cada dia. O que me perturbava era a questão que ele fazia de falar bem na cara da pessoa. Espaço pessoal pra quê? A criatura ou tinha algum problema ou resolvera fazer sua missão de vida atazanar a viagem de cada estudante ou trabalhador cansado que estudou e trabalhou o dia inteiro e só quer ter uma viagem em paz ouvindo seu iPod.
Faz favor, me erra, né.
"Bom dia."
"Bom dia", retribuí.
Bom dia. Normal. Pessoas falam bom dia uma às outras no cotidiano o tempo todo, mas não parou por aí. Pensando que o colchete das normas básicas da educação social já havia se fechado, eu continuei meu caminho à procura de um lugar aconchegante que não estivesse pingando água de ar-condicionado de ônibus com defeito, mas o cobrador chama a minha atenção de volta.
"Ei!"
"Oi?"
"Só Jesus salva, hein!"
Momento estranho em que o cobrador fala pra você que só Jesus pra te salvar. Deduções de uma mente desiquilibrada começa a funcionar a todo o vapor. Obviamente as roupas que eu tinha escolhido no dia gritavam minha orientação sexual e o cobrador cristão resolveu aproveitar essa oportunidade certeira de repassar a palavra de Jesus para um pobre garoto mundano. Não, obrigada. Corri discretamente para o primeiro assento do ônibus, o mais longe possível do cristão freak.
Mas.
Ele.
Veio.
Atrás.
De.
Mim.
"Aceita Jesus", ele me disse. "Aceita Jesus nosso senhor no seu coração. Jesus te ama! JESUS TE AMA! Só ele salva, só ele! Jesus Salvador. Salvador!"
Creepy total. Ele dizia tudo tão pertinho de mim que eu sentia até a respiração dele. Pensei, fodeu. Me caguei todo. Não tinha NINGUÉM no ônibus, nenhuma testemunha, só eu, ele e o motorista. Estava cedo e as pessoas estavam vindo trabalhar, não voltando pra casa, era meu dia de sair cedo do trabalho. Fodeu, cristão cobrador homofóbico vai me matar, esquartejar e guardar os pedacinhos em sacos de lixo preto no bagageiro do ônibus e o motorista comparsa, também homofóbico, vai acobertar o crime. Pensei. Eu já conseguia visualizar o homicídio estampado na capa do jornal e minha mãe chorando no Balanço Geral do Wagner Montes pedindo justiça. Imagina a derrota? Assassinado por cobrador de ônibus? Ah não.
Só me tranquilizei quando outras pessoas começaram a subir no ônibus e ele passou a me esquecer e mirar sua atenção nelas.
"ACEITA JESUS, ACEITA! JÁ ACEITOU?"
Ninguém escapava, nem os camelôs, vendendo o docinho e o amendoim de cada dia. O que me perturbava era a questão que ele fazia de falar bem na cara da pessoa. Espaço pessoal pra quê? A criatura ou tinha algum problema ou resolvera fazer sua missão de vida atazanar a viagem de cada estudante ou trabalhador cansado que estudou e trabalhou o dia inteiro e só quer ter uma viagem em paz ouvindo seu iPod.
Faz favor, me erra, né.
10 de mar. de 2013
Aquele onde não aceitam cartão de crédito
"Quero essa bolsa aqui, moço."
"Essa?"
"Não, essa aqui. De bolinhas. Quanto tá?"
"Dez reais, senhora. Dinheiro ou cartão?"
"Cartão? Você aceita cartão? Não sabia que vocês aceitavam cartão agora, essa é nova pra mim!"
"É, tamo aceitando sim, senhora, tem um monte aí aceitando agora."
Disse o camelô de trem para sua cliente.
Ver um vendedor camelô no trem tirando da sua pochete uma daquelas máquinas de cartão de crédito foi uma experiência inovadora pra mim. Eu tenho como opinião que é lamentável nos dias de hoje estabelecimentos não aceitarem cartão de crédito ou débito, é atraso tecnológico. Veja o camelô. Até eles estão aceitando.
Quer melhor praticidade do que dizer "Passa no cartão" e não se preocupar em pegar naquele dinheiro imundo que passa de mão em mão e que você nunca saberá realmente por onde andou? A gente pode estar manuseando uma nota que uma vez esteve bem no saco escrotal de um stripper e nunca vai saber. A nota de um real, por exemplo? Ficou tão rodada que não existia mais nota que não estivesse caindo aos pedaços. Eu pelo menos não via. Se bobear até o verdadeiro motivo de a tirarem de circulação.
Não respeito lojas que não aceitam cartão. Num mundo ideal, o dinheiro em papel estará extinto e o ser humano nunca mais precisará carregar ou se preocupar com coliformes fecais em cédulas de dinheiro.
"Essa?"
"Não, essa aqui. De bolinhas. Quanto tá?"
"Dez reais, senhora. Dinheiro ou cartão?"
"Cartão? Você aceita cartão? Não sabia que vocês aceitavam cartão agora, essa é nova pra mim!"
"É, tamo aceitando sim, senhora, tem um monte aí aceitando agora."
Disse o camelô de trem para sua cliente.
Ver um vendedor camelô no trem tirando da sua pochete uma daquelas máquinas de cartão de crédito foi uma experiência inovadora pra mim. Eu tenho como opinião que é lamentável nos dias de hoje estabelecimentos não aceitarem cartão de crédito ou débito, é atraso tecnológico. Veja o camelô. Até eles estão aceitando.
Quer melhor praticidade do que dizer "Passa no cartão" e não se preocupar em pegar naquele dinheiro imundo que passa de mão em mão e que você nunca saberá realmente por onde andou? A gente pode estar manuseando uma nota que uma vez esteve bem no saco escrotal de um stripper e nunca vai saber. A nota de um real, por exemplo? Ficou tão rodada que não existia mais nota que não estivesse caindo aos pedaços. Eu pelo menos não via. Se bobear até o verdadeiro motivo de a tirarem de circulação.
Não respeito lojas que não aceitam cartão. Num mundo ideal, o dinheiro em papel estará extinto e o ser humano nunca mais precisará carregar ou se preocupar com coliformes fecais em cédulas de dinheiro.
25 de fev. de 2013
Aquele do assento vazio no ônibus
E quando você entra no ônibus cujos assentos estão TODOS ocupados com a exceção de um? Você passa o olho pelo interior do ônibus e observa vários cidadãos de pé, como se o banco fosse uma fonte nojenta e apodrecida de fungos e germes, todos aglomerados em reprodução constante. Um elefante rosa no meio de um monte de gente.
Ué, por que ninguém sentou no banco, você pensa. Sentar, não sentar, o que fazer? Parece até a Escolha de Sofia. Por que, afinal de contas, ninguém está sentando no maldito banco? O tempo passa, mais pessoas entram no ônibus e o banco continua vazio. É como uma contínua e gradual linha de pensamento dedutivo que passa pela mente de todas as pessoas atribuindo tudo de ruim que pode ter acontecido ao espaço ao redor do banco. Alguém pode ter vomitado, se cagado, um bebê pode ter gorfado no colo da mãe, um mendigo cracudo pode ter sentado ali, há uma gama infinita de possibilidades, mas o mistério permanece em aberto. Por que ninguém senta?
Eu decidi descobrir. Sentei.
O mistério do banco vazio eu resolvi quase que instantaneamente quando aquele fedor de cecê de sovaco de três dias sem banho em época de verão do Rio de Janeiro entrou pelas minhas narinas.
Mas e agora, José? Levantar ou não levantar?
Ué, por que ninguém sentou no banco, você pensa. Sentar, não sentar, o que fazer? Parece até a Escolha de Sofia. Por que, afinal de contas, ninguém está sentando no maldito banco? O tempo passa, mais pessoas entram no ônibus e o banco continua vazio. É como uma contínua e gradual linha de pensamento dedutivo que passa pela mente de todas as pessoas atribuindo tudo de ruim que pode ter acontecido ao espaço ao redor do banco. Alguém pode ter vomitado, se cagado, um bebê pode ter gorfado no colo da mãe, um mendigo cracudo pode ter sentado ali, há uma gama infinita de possibilidades, mas o mistério permanece em aberto. Por que ninguém senta?
Eu decidi descobrir. Sentei.
O mistério do banco vazio eu resolvi quase que instantaneamente quando aquele fedor de cecê de sovaco de três dias sem banho em época de verão do Rio de Janeiro entrou pelas minhas narinas.
Mas e agora, José? Levantar ou não levantar?
19 de fev. de 2013
Aquele da mosca no prato
"Gente, o que é esse negocinho preto na minha galinha? É um bicho?"
"Relaxa, é tempero."
"Não, sério, vê direito isso. É uma mosca? Pra mim tá parecendo uma mosca."
"Mosca? Na sua comida? Cadê?"
"Aqui ó."
"Caralho, isso é uma mosca mesmo! Olha ali a asinha dela, tá vendo? E varejeira ainda por cima!"
"Que nojo!"
"Perdi total o apetite."
"Isso é um absurdo, tem uma mosca no meu prato. E não caiu agora não! Ela tá cozida!"
"Viu, eu tinha razão, é tempero."
Reprodução da hora do almoço do dia de HOJE no bandejão da Faculdade de Letras na UFRJ, com mais duas amigas.
Restaurante universitário. Não tem como ficar melhor do que isso.
"Relaxa, é tempero."
"Não, sério, vê direito isso. É uma mosca? Pra mim tá parecendo uma mosca."
"Mosca? Na sua comida? Cadê?"
"Aqui ó."
"Caralho, isso é uma mosca mesmo! Olha ali a asinha dela, tá vendo? E varejeira ainda por cima!"
"Que nojo!"
"Perdi total o apetite."
"Isso é um absurdo, tem uma mosca no meu prato. E não caiu agora não! Ela tá cozida!"
"Viu, eu tinha razão, é tempero."
Reprodução da hora do almoço do dia de HOJE no bandejão da Faculdade de Letras na UFRJ, com mais duas amigas.
Restaurante universitário. Não tem como ficar melhor do que isso.
14 de fev. de 2013
1 de fev. de 2013
Aquele do milkshake
"Moço, me compra um milkshake?"
"Não."
"Ah, num fode, então!"
Foi o que me disse um garotinho de rua em frente ao Bob's enquanto eu voltava pra casa ontem a noite. Essas crianças estão ficando cada vez mais exigentes. Quer dizer: "Não preciso de um prato de comida não, moço. Eu quero mesmo é um milshake de ovomaltine."
Adelaide discordaria de mim. Pobre também merece milkshake.
"Não."
"Ah, num fode, então!"
Foi o que me disse um garotinho de rua em frente ao Bob's enquanto eu voltava pra casa ontem a noite. Essas crianças estão ficando cada vez mais exigentes. Quer dizer: "Não preciso de um prato de comida não, moço. Eu quero mesmo é um milshake de ovomaltine."
Adelaide discordaria de mim. Pobre também merece milkshake.
2 de jan. de 2013
Aquele em que 2013 começa
Nada mais conveniente que o primeiro dia útil do ano para recomeçar a escrever. Ano passado foi, apesar de todas as coisas boas, o que eu acredito ter sido o ano mais vagabundo da história da minha vida. Por isso HOJE estaremos dando início a nossa humilde tentativa de fazer de 2013 um ano mais produtivo.
Vamos ver se eu consigo fazer meus trabalhos em dia, guardar dinheiro e o mais importante: Continuar todos os meus projetos. Ou pelo menos aqueles que já estavam em prática. Há quanto tempo que eu não publico uma tirinha?Dois meses. Para mim parece uma eternidade.
Em outras novidades, eu tenho o o grande orgulho de dizer que os Neuróticos ganharam seu primeiríssimo fanart!OK, não é bem um fanart. Eu participei de um 'Amigo Oculto' no deviantArt e ganhei um desenho do Leandro. E ficou lindo, qualquer um pode ver bem aqui.
Enfim, 2013 já deu a largada e eu já estou me sentido atrasado na corrida, mas com o tempo a gente acelera.
Simbora.
Vamos ver se eu consigo fazer meus trabalhos em dia, guardar dinheiro e o mais importante: Continuar todos os meus projetos. Ou pelo menos aqueles que já estavam em prática. Há quanto tempo que eu não publico uma tirinha?
Em outras novidades, eu tenho o o grande orgulho de dizer que os Neuróticos ganharam seu primeiríssimo fanart!
Enfim, 2013 já deu a largada e eu já estou me sentido atrasado na corrida, mas com o tempo a gente acelera.
Simbora.
9 de dez. de 2012
Aquele da crise de idade
Voltando para casa, passei por duas criancinhas jogando bola.
"PEGA AÍ, TIO!", gritou uma delas, querendo passar a bola pra mim.
Como assim TIO? Tio meu cu! Não faz nem um ano que eu entrei na casa dos vinte e essa galera jovem da Geração Glee já tá querendo me chamar de tio? Os aluninhos eu até aceito, mas fora do trabalho? Não, não dá.
Crise de idade define.
7 de out. de 2012
Aquele do título eleitoral
Todo ano eu perco o título de eleitor e fico a véspera inteira do dia da votação procurando a droga do documento pra não perder o dia. Esse ano não foi diferente.
Há algumas semanas atrás minha tia havia pedido meu título pra ganhar propina de um candidato a vereador e inventei uma mentira deslavada que tinha perdido meu documento. Vender voto não é comigo, muito menos deixar alguém TIRAR XEROX do meu documento (porque era pra isso que ela queria) pra receber vinte reais de um vereador vagabundo que nem primeiro ensino completo tem.
"Já achou o título, filho?", peguntava minha tia inúmeras vezes.
"Não, tia, tô procurando ainda."
Então ontem eu fui abrir a caixinha onde eu acreditava ter deixado o título e Que surpresa!, não estava lá. Parecia castigo divino.Nunca mintam, crianças. Mentir gera karma negativo.
E assim foi o meu sábado antes votação: Vasculhar meu quarto INTEIRO, bagunçar ainda mais minha já então bagunçada estante procurando um mísero pedaço de papel enquanto meu pai lindo berrava constantemente no meu ouvido palavras de apoio como o quanto eu era irresponsável, o quanto ele não acreditava que todo ano de votação o mesmo drama acontecia e que eu ia ter que enfrentar fila para re-fazer um título de eleitor pela terceira vez.
Pois bem, o dia passou e eu não encontrei meu título de eleitor. Acordei hoje de manhã cedinho de novo pra dar mais uma olhada na esperança de que algum buraco tenha passado batido e o infeliz documento estivesse por lá. Eu passo pelo quarto dos meus pais e observo a estranha situação de meu pai vasculhando uma de suas gavetas. Já estranhei.
Dois minutos depois, enquanto eu arrancava meus cabelos, meu pai vem me entregar meu título. Ele tinha guardado, olha que fofo. Ele tinha guardado meu título para me poupar do para sempre drama da minha vida de perder meus documentos quando eu preciso deles.
Minha vontade foi de esganar.
Há algumas semanas atrás minha tia havia pedido meu título pra ganhar propina de um candidato a vereador e inventei uma mentira deslavada que tinha perdido meu documento. Vender voto não é comigo, muito menos deixar alguém TIRAR XEROX do meu documento (porque era pra isso que ela queria) pra receber vinte reais de um vereador vagabundo que nem primeiro ensino completo tem.
"Já achou o título, filho?", peguntava minha tia inúmeras vezes.
"Não, tia, tô procurando ainda."
Então ontem eu fui abrir a caixinha onde eu acreditava ter deixado o título e Que surpresa!, não estava lá. Parecia castigo divino.
E assim foi o meu sábado antes votação: Vasculhar meu quarto INTEIRO, bagunçar ainda mais minha já então bagunçada estante procurando um mísero pedaço de papel enquanto meu pai lindo berrava constantemente no meu ouvido palavras de apoio como o quanto eu era irresponsável, o quanto ele não acreditava que todo ano de votação o mesmo drama acontecia e que eu ia ter que enfrentar fila para re-fazer um título de eleitor pela terceira vez.
Pois bem, o dia passou e eu não encontrei meu título de eleitor. Acordei hoje de manhã cedinho de novo pra dar mais uma olhada na esperança de que algum buraco tenha passado batido e o infeliz documento estivesse por lá. Eu passo pelo quarto dos meus pais e observo a estranha situação de meu pai vasculhando uma de suas gavetas. Já estranhei.
Dois minutos depois, enquanto eu arrancava meus cabelos, meu pai vem me entregar meu título. Ele tinha guardado, olha que fofo. Ele tinha guardado meu título para me poupar do para sempre drama da minha vida de perder meus documentos quando eu preciso deles.
Minha vontade foi de esganar.
6 de out. de 2012
Aquele em que eu amo todo mundo
Eu só queria dizer que embora digam o contrário, a verdade é que eu não odeio as pessoas. Eu amo todo mundo.
Comentaram comigo esses dias:
"Eu queria muito saber por que você odeia tanto o Cicrano."
"Mas eu não odeio Cricano! Nunca disse isso."
"Sei."
"Eu só quero é que Cricano exploda e morra. Isso não é odiar."
Comentaram comigo esses dias:
"Eu queria muito saber por que você odeia tanto o Cicrano."
"Mas eu não odeio Cricano! Nunca disse isso."
"Sei."
"Eu só quero é que Cricano exploda e morra. Isso não é odiar."
19 de set. de 2012
Aquele em que eu canto Adele
Passei o final de semana inteiro ouvindo e cantando Adele aos berros na casa do meu namorado, que estava trabalhando o final de semana inteiro e seus vizinhos pareciam ter tomado chá de sumiço. Infelizmente, ninguém estava presente para ter o privilégio de ouvir o encanto de minhas magníficas cordas vocais em todo o seu esplendor. Mas eu insisti.
Hoje eu estou rouco como nunca estive antes.
Deixar Chasing Pavements no repeat mode talvez não tenha sido a melhor ideia que eu tive, afinal.
E eu estou aqui falando das minhas magníficas cordas vocais porque eu precisava mesmo escrever alguma coisa e não tinha nada melhor pra contar.
Fim da história de hoje.
P.S.: Hoje eu descobri como deve ser o inferno. A temperatura chegou a qual ponto nesse estado deplorável? Cinquenta? Frente fria cadê.
Hoje eu estou rouco como nunca estive antes.
Deixar Chasing Pavements no repeat mode talvez não tenha sido a melhor ideia que eu tive, afinal.
E eu estou aqui falando das minhas magníficas cordas vocais porque eu precisava mesmo escrever alguma coisa e não tinha nada melhor pra contar.
Fim da história de hoje.
P.S.: Hoje eu descobri como deve ser o inferno. A temperatura chegou a qual ponto nesse estado deplorável? Cinquenta? Frente fria cadê.
16 de set. de 2012
Aquele do gel lubrificante
Pedrinho e Ângelo já namoravam há um ano e meio e tinham uma vida sexual bem ativa. Uma vez depois de saírem pra jantar, voltando pra casa, Ângelo cismou em parar na farmácia da rua da casa dele para comprar lubrificante.
"Gel lubrificante", Ângelo pediu para a atendente.
"Só pedir ali no balcão", respondeu ela, dando uma risadinha pra Pedrinho, que fingia ter entrado sozinho e olhava os produtos da farmácia com grande interesse, como se estivesse procurando alguma coisa.
"Pedrinho!", chamou Ângelo em voz alta. "Você prefere com esse ou com esse?"
Farmácia inteira para pra prestar atenção em Ângelo segurando os dois tubos de lubrificante de marcas diferentes.
Existe vergonha maior?
Pode acontecer com qualquer um. Aconteceu com um amigo meu.
8 de set. de 2012
Aquele do KitKat
Eu invejo com a minha alma essas pessoas que conseguem ir no supermercado e comer coisa de graça sem se preocupar em ser pego com a boca na botija e apodrecer na cadeia que nem aquela mulher pobre que virou notícia depois de ser presa por roubar um pote de manteiga Qually porque tava com fome e não queria comer pão seco. Invejo mesmo, porque eu-não-consigo.
É muito raro eu ir no supermercado e comprar mais de vinte itens então geralmente eu entro na fila de vinte itens para menos, onde a gente encontra um monte daquelas guloseimas, doces, petiscos, essas coisas que a gente compra só pra ter algo para mastigar na boca. Então eu estava no supermercado e enquanto eu espero na fila o que eu mais via eram pacotes abertos, coisas mordidas, comidas pela metade, sacos vazios. Embasbaquei-me. Quanto de dinheiro o mercado não deve perder só com essas coisinhas que o brasileiro "petisca" na fila do supermercado sem pagar?
Era a oportunidade perfeita para aplicar o golpe. Escolhi pegar um KitKat porque o absurdo do meu namorado, que estava comigo na hora, nunca tinha provado e aquilo não podia ficar assim.
Peguei o KitKat, abri, comemos apenas metade e eu coloquei de volta no lugar. No segundo seguinte eu estava assim:
"Ai meu Deus, será que alguém me viu? Mas e se me barrarem na saída? Aquilo ali é uma camera? É uma camera, não é? Tão filmando tudo! Me gravaram comendo o chocolate sem pagar, o que a gente faz agora? Se eu for preso você vai junto, o que eu vou dizer pros meus pais? Meu Deus, tem uma segurança vindo na nossa direção, ela vai me pegar em flagrante. Me dá esse KitKat aqui, me dá esse KitKat agora, eu vou pagar por isso."
Eu paguei pelo KitKat.
Saí de consciência limpa.
É muito raro eu ir no supermercado e comprar mais de vinte itens então geralmente eu entro na fila de vinte itens para menos, onde a gente encontra um monte daquelas guloseimas, doces, petiscos, essas coisas que a gente compra só pra ter algo para mastigar na boca. Então eu estava no supermercado e enquanto eu espero na fila o que eu mais via eram pacotes abertos, coisas mordidas, comidas pela metade, sacos vazios. Embasbaquei-me. Quanto de dinheiro o mercado não deve perder só com essas coisinhas que o brasileiro "petisca" na fila do supermercado sem pagar?
Era a oportunidade perfeita para aplicar o golpe. Escolhi pegar um KitKat porque o absurdo do meu namorado, que estava comigo na hora, nunca tinha provado e aquilo não podia ficar assim.
Peguei o KitKat, abri, comemos apenas metade e eu coloquei de volta no lugar. No segundo seguinte eu estava assim:
"Ai meu Deus, será que alguém me viu? Mas e se me barrarem na saída? Aquilo ali é uma camera? É uma camera, não é? Tão filmando tudo! Me gravaram comendo o chocolate sem pagar, o que a gente faz agora? Se eu for preso você vai junto, o que eu vou dizer pros meus pais? Meu Deus, tem uma segurança vindo na nossa direção, ela vai me pegar em flagrante. Me dá esse KitKat aqui, me dá esse KitKat agora, eu vou pagar por isso."
Eu paguei pelo KitKat.
Saí de consciência limpa.
28 de ago. de 2012
Aquele da ereção indesejada
Uma coisa que as mulheres nunca vão entender plenamente é o problema da ereção indesejada. Às vezes você está na rua, os passarinhos estão cantando, o sol está brilhando lá no alto e de repente NUMA FRAÇÃO DE SEGUNDO uma imagem passa ligeira na sua cabeça e pronto.
Eu por exemplo, andar de ônibus sozinho é um problema sério. Eu não sei o que acontece, talvez seja aquela sensação íntima e contínua de treme-treme que o veículo desperta, ou talvez seja psicológico mesmo. Auto-envergonhamento, sabe. Só sei que o episódio aconteceu mais vezes do que eu sou capaz de contar com os dedos das mãos e dos pés. Pouco falta para levantar do assento e descer do ônibus quando algo acontece e eu penso em... sexo.
E isso é um problema porque, bem, eu geralmente uso calças apertadíssimas. Daí o que fazer, né. Apelamos para aquele mantra desesperado de elementos não sexuais:
Até agora tem dado certo.
Eu por exemplo, andar de ônibus sozinho é um problema sério. Eu não sei o que acontece, talvez seja aquela sensação íntima e contínua de treme-treme que o veículo desperta, ou talvez seja psicológico mesmo. Auto-envergonhamento, sabe. Só sei que o episódio aconteceu mais vezes do que eu sou capaz de contar com os dedos das mãos e dos pés. Pouco falta para levantar do assento e descer do ônibus quando algo acontece e eu penso em... sexo.
E isso é um problema porque, bem, eu geralmente uso calças apertadíssimas. Daí o que fazer, né. Apelamos para aquele mantra desesperado de elementos não sexuais:
"Vovó. Vovó. Vovó. Vovó. Vovó. Vóvó."
Até agora tem dado certo.
8 de ago. de 2012
Aquele da resposta errada
"Quem se veste melhor, eu ou o seu ex?"
"Hum, deixa eu pensar."
"Resposta errada."
"Hum, deixa eu pensar."
"Resposta errada."
31 de jul. de 2012
Aquele do cu do mundo
Engraçado como às vezes eu sinto que não estou na capital. Deviam considerar o bairro daqui outra cidade, porque olha, difícil fazer qualquer coisa nesse lugar. Altas horas da noite, namorado e eu, os dois na bobeira doidos pra pedir um serviço de quarto porque não tinha nada além de salada pra comer em casa, salada esta que eu acabei preparando com tudo de possível que vi na frente e não deixei restar nem migalhas. O gás tinha acabado de acabar e o nosso microondas, que devia estar aqui do meu ladinho correspondendo às minhas necessidades, está a quilômetros de distância de mim já que meu namorado lindo não toma vergonha na cara pra ir buscar.
Sem brincadeira. Ligamos pra tudo quanto é canto. Ligamos para entregas de comida chinesa, sanduíches, provavelmente umas vinte pizzarias. Incrível. Ou o nosso bairro, olha que lindo, estava FORA DA ROTA da empresa, significando que eles não entregavam aqui nem se pagássemos A MAIS, ou não traziam a maquininha do cartão de crédito.
Bem, o caixa eletrônico 24 horas da farmácia da rua debaixo estava fechado (deviam mudar o nome desses caixas). Que culpa EU tenho de só ter três reais na carteira? Nenhuma. E na verdade eu acho até que o problema do cartão de crédito aconteceu só com cinco por cento dessas tentativas, os outros 95% eram de estabelecimentos que se recusavam a vir até Pavuna.
Cu do mundo esse lugar.
Sem brincadeira. Ligamos pra tudo quanto é canto. Ligamos para entregas de comida chinesa, sanduíches, provavelmente umas vinte pizzarias. Incrível. Ou o nosso bairro, olha que lindo, estava FORA DA ROTA da empresa, significando que eles não entregavam aqui nem se pagássemos A MAIS, ou não traziam a maquininha do cartão de crédito.
Bem, o caixa eletrônico 24 horas da farmácia da rua debaixo estava fechado (deviam mudar o nome desses caixas). Que culpa EU tenho de só ter três reais na carteira? Nenhuma. E na verdade eu acho até que o problema do cartão de crédito aconteceu só com cinco por cento dessas tentativas, os outros 95% eram de estabelecimentos que se recusavam a vir até Pavuna.
Cu do mundo esse lugar.
27 de jul. de 2012
Aquele do Anima Mundi 2012
Esse ano eu tive a sorte de trabalhar na temporada carioca do festival Anima Mundi que, pra quem não conhece, comentam ser o terceiro ou segundo maior festival de animação do mundo inteiro. Uma loucura.
Passei praticamente duas semanas sem comer, dormir ou cagar direito, quem dirá ter tempo pra sentar e blogar pra aliviar a tensão da mente. Pra quem entende a expressão "Se eu não escrever, eu piro" deve ter uma noção do que foi a minha vida. Eu pirei. Sem brincadeira, durante o festival inteiro minha vida foi acordar às sete da manhã e chegar em casa quase meia noite, todos os dias. O pouco tempo que me restava eu guardava pra comer alguma coisinha pra aliviar o buraco que eu formava no estômago por não comer direito e, só então, desmaiar linda em cima da minha cama.
Acho que de todos os (dois) trabalhos que tive em minha vida toda, nenhum deles se comparou à pressão de trabalhar na produção do Anima Mundi, mas valeu a pena. Conheci muita gente nova, aprendi um monte de coisa e tive a experiência magnífica de poder falar com um monte de gringo, um mais simpático que o outro.
Me tiraram do cu do mundo no meio de uma crise.
"Pensou, resolveu. É essa a tática. O trabalho aqui é feito na pressão, você vai precisar atender todo mundo que apareça aqui, maioria gente importante. São artistas, diretores, produtores. Alguns são legais, alguns são muito chatos. Mas você é obrigado a ser simpático com todo mundo. A última menina que estava no seu lugar não aguentou a pressão, começou a chorar e pediu pra sair. Eu preciso saber se você topa. Você topa?"
Eu topei.
Passei praticamente duas semanas sem comer, dormir ou cagar direito, quem dirá ter tempo pra sentar e blogar pra aliviar a tensão da mente. Pra quem entende a expressão "Se eu não escrever, eu piro" deve ter uma noção do que foi a minha vida. Eu pirei. Sem brincadeira, durante o festival inteiro minha vida foi acordar às sete da manhã e chegar em casa quase meia noite, todos os dias. O pouco tempo que me restava eu guardava pra comer alguma coisinha pra aliviar o buraco que eu formava no estômago por não comer direito e, só então, desmaiar linda em cima da minha cama.
Acho que de todos os (dois) trabalhos que tive em minha vida toda, nenhum deles se comparou à pressão de trabalhar na produção do Anima Mundi, mas valeu a pena. Conheci muita gente nova, aprendi um monte de coisa e tive a experiência magnífica de poder falar com um monte de gringo, um mais simpático que o outro.
Me tiraram do cu do mundo no meio de uma crise.
"Pensou, resolveu. É essa a tática. O trabalho aqui é feito na pressão, você vai precisar atender todo mundo que apareça aqui, maioria gente importante. São artistas, diretores, produtores. Alguns são legais, alguns são muito chatos. Mas você é obrigado a ser simpático com todo mundo. A última menina que estava no seu lugar não aguentou a pressão, começou a chorar e pediu pra sair. Eu preciso saber se você topa. Você topa?"
Eu topei.
6 de jul. de 2012
27 de jun. de 2012
Aquele da infantilidade
Lá estava eu, sentado, lendo um livro qualquer na sala de espera do consultório do meu clínico geral, aguardando para ser atendido. Eu e uma menina, aparentemente da mesma idade que eu ou talvez um pouco mais velha, estávamos mofando naquele consultório há intermináveis três horas quando eu resolvi fazer um lanchinho de glicose. Comprei um pacotinho daqueles biscoitos em forma de canudinho, recheado com chocolate e fui ignorar minha taxa elevada de açúcar no sangue em paz.
Eu mal tinha acabado de terminar meu pacotinho quando a vagabunda se levanta e, de todas as opções disponíveis, comprou o mesmíssimo biscoito que eu. Fitei incrédulo a maldita.
Naquela hora, em algum lugar das entranhas da minha alma uma necessidade perturbadora de olhar para a garota com todo o desprezo que eu pudesse juntar na hora cresceu dentro de mim. A minha vontade, honestamente, era de regredir minha idade mental por completo, virar e falar:
"Sua macaca de imitação ridícula."
Mas daí eu lembrei que eu não estava mais no jardim de infância.
Eu mal tinha acabado de terminar meu pacotinho quando a vagabunda se levanta e, de todas as opções disponíveis, comprou o mesmíssimo biscoito que eu. Fitei incrédulo a maldita.
Naquela hora, em algum lugar das entranhas da minha alma uma necessidade perturbadora de olhar para a garota com todo o desprezo que eu pudesse juntar na hora cresceu dentro de mim. A minha vontade, honestamente, era de regredir minha idade mental por completo, virar e falar:
"Sua macaca de imitação ridícula."
Mas daí eu lembrei que eu não estava mais no jardim de infância.
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