30 de out de 2012

Aquele da menina que não canta nada

Fomos mamãe e eu para uma festa da parte evangélica da família do meu pai em que um dos meus primos iria cantar num recital. Quando chegou a vez dele cantar, subiu uma garota com ele no palco e eles acabaram cantando um dueto.

Até aí tudo bem.

Chegando quase no final da festa, já estávamos de saco cheio e queríamos mais era dar o fora dali. Como a educação manda, fomos lá mamãe e eu nos despedirmos e darmos os parabéns ao meu primo cantor. Ele estava sentado junto com a mãe, irmã e um grupinho de agregados, provavelmente da igreja deles.

"Nossa, mas você arrasou!", começou minha mãe, toda empolgada. "Você tem um vozerão, cara! Sério! Me impressionei, eu sabia que você sabia cantar, mas não que era tão bom assim. Você só podia ter cantado solo, né, porque aquela menina que cantou com você, ó. Vou dizer. Muito ruim, canta nada! Na-da! Afinal, quem é aquela garota?"

"Era eu.", disse uma das meninas que estavam no grupinho.

Eu olhei pra mamãe, mamãe olhou pra mim. Pedimos licença e nos retiramos.

"Que vexame, mãe."

"Cala a boca e anda rápido."

29 de out de 2012

Aquele das vagens

Não é exatamente um segredo que um dos maiores desejos do meu pai é ver meu namorado morto. Um ano e meio já se passou depois do fatídico dia em que todas as esperanças de papai de me ver casado com alguma Sra. Seios se desvaneceram em pó. Os limites dos segredinhos já haviam extrapolado e eu tive que desenhar explicadinho para ele entender que o amiguinho com quem eu passava tanto tempo junto era na verdade meu namorado.

Esses dias enquanto mofávamos em casa, nesse calor infernal do Rio de Janeiro, decidimos cozinhar vagens para a salada do jantar. Como meu namorado não sabe preparar as vagens do jeitinho que minha mãe costuma fazer, eu pedi delicadamente para ele ligar pra minha casa e perguntar para ela. Afinal, meu pai trabalhava o dia todo fora e a Sra. Minha Mãe, diferente dele, não havia me proibido de mencionar o nome do bofe em sua presença.

E então ele ligou.

"Alô?", ele disse depois de discar o número. "Dona Madalena? É o Anderson, namorado do Alison, tudo bem? ..... Ué. Ela desligou na minha cara."

Não deu nem um minuto e meu pai ligou para o meu celular, puto da vida, dando sermão sobre como ele não precisa que eu esfregue na cara dele os detalhes do meu "estilo de vida".

Mas que culpa eu tenho se ele saiu cedo do trabalho e acabou atendendo o telefone?

12 de out de 2012

Aquele de quando eu era criança


Acho um absurdo o que a natureza faz com a gente durante o crescimento, algumas coisas chega a ser até injusto. Quando bem criancinha mesmo eu era totalmente diferente, quase irreconhecível. Branco, gordinho-gostoso, os cabelos pretíssimos e lisíssimos. Hoje eu sou magrelo, negro, com os cabelos mais crespos que bucha-vegetal. Eu costumo acreditar, inclusive, que minha família devia achar que algum erro do hospital levou a trazerem a criança errada pra casa.

Tem gente que nem acredita que o bebê da foto um dia fui eu, mas olhando bem, há dois fatos incostestáveis: Minhas orelhinhas pontudas e o narizinho de batata.

O destino podia ter pelo menos me deixado com o cabelo liso, cuidar do afro todas as manhãs dá um trabalho do cão.

7 de out de 2012

Aquele do título eleitoral

Todo ano eu perco o título de eleitor e fico a véspera inteira do dia da votação procurando a droga do documento pra não perder o dia. Esse ano não foi diferente.

Há algumas semanas atrás minha tia havia pedido meu título pra ganhar propina de um candidato a vereador e inventei uma mentira deslavada que tinha perdido meu documento. Vender voto não é comigo, muito menos deixar alguém TIRAR XEROX do meu documento (porque era pra isso que ela queria) pra receber vinte reais de um vereador vagabundo que nem primeiro ensino completo tem.

"Já achou o título, filho?", peguntava minha tia inúmeras vezes.

"Não, tia, tô procurando ainda."

Então ontem eu fui abrir a caixinha onde eu acreditava ter deixado o título e Que surpresa!, não estava lá. Parecia castigo divino. Nunca mintam, crianças. Mentir gera karma negativo.

E assim foi o meu sábado antes votação: Vasculhar meu quarto INTEIRO, bagunçar ainda mais minha já então bagunçada estante procurando um mísero pedaço de papel enquanto meu pai lindo berrava constantemente no meu ouvido palavras de apoio como o quanto eu era irresponsável, o quanto ele não acreditava que todo ano de votação o mesmo drama acontecia e que eu ia ter que enfrentar fila para re-fazer um título de eleitor pela terceira vez.

Pois bem, o dia passou e eu não encontrei meu título de eleitor. Acordei hoje de manhã cedinho de novo pra dar mais uma olhada na esperança de que algum buraco tenha passado batido e o infeliz documento estivesse por lá. Eu passo pelo quarto dos meus pais e observo a estranha situação de meu pai vasculhando uma de suas gavetas. Já estranhei.

Dois minutos depois, enquanto eu arrancava meus cabelos, meu pai vem me entregar meu título. Ele tinha guardado, olha que fofo. Ele tinha guardado meu título para me poupar do para sempre drama da minha vida de perder meus documentos quando eu preciso deles.

Minha vontade foi de esganar.

6 de out de 2012

Aquele em que eu amo todo mundo

Eu só queria dizer que embora digam o contrário, a verdade é que eu não odeio as pessoas. Eu amo todo mundo.

Comentaram comigo esses dias:

"Eu queria muito saber por que você odeia tanto o Cicrano."

"Mas eu não odeio Cricano! Nunca disse isso."

"Sei."

"Eu só quero é que Cricano exploda e morra. Isso não é odiar."