20 de fev. de 2012

Aquele dos macaquinhos

(Santa Irapitinga do Segredo, 1941, Tarsila do Amaral)

"Que é isso, gente, são macaquinhos?" eu perguntei em voz alta.

Uma mulher em pé que estava bem ao meu lado na exposição da Tarsila Amaral, vendo a mesma imagem, virou pra mim indignada.

"Não. São criancinhas".

"Ah".

Mas ó, em minha defesa, aquele ali à esquerda, que está subindo o muro, parece que tem um rabo.

15 de fev. de 2012

Aquele em que gostam dos meus óculos

"Eu te acho muito bonito, sabia? Digo, o seu rosto, é bem másculo. Se fizesse academica pra ficar fortinho, eu até embarcava" me disse um amigo certa vez.

"Ah, você acha?" disse incrédulo o amigo dele, que estava sentado ao seu lado, me analisando de cima a baixo depois do comentário sobre mim "Eu gosto dos... óculos dele. Acho bonito".

Que merda de elogio foi esse? Meus óculos?
Eu acho que, assim, nessas horas o silêncio é o melhor comentário a se fazer. E não "Não acho ele bonito, mas dos óculos dele eu gosto".

Se manca.

13 de fev. de 2012

Aquele dos recadinhos escolares

Minha mãe é maluca. Isso é inconstestável. Aliás, umas das razões para eu ser essa pessoa paciente, sensata e centrada que sou hoje em dia é por ter crescido em casa com uma mulher instável, desesperada e sem noção das consequências de seus atos.

Eu sempre fui um aluno exemplar, sabem. Mas não era abitolado. Às vezes eu não tinha vontade de estudar ou fazer porra de dever de casa nenhum e não me preocupava tanto com isso. O problema era que a minha escola ginasial era meio rígida quanto às obrigações escolares, dependendo do professor. Quer dizer. Eu não podia deixar de fazer uma porcaria de exercício que eu já levava um aviso pra casa pedindo providências sobre meu comportamente inadequado. Aviso esse que, no dia seguinte, deveria ser entregue assinado por pelo menos um dos pais. Como meu pai quase nunca se encontrava em casa, quem tinha o dever de acompanhar meu rendimento escolar era, obviamente, mamãe.

Não que mamãe tenha sido uma excelente aluna. Não, eu acho que não. Lembro de histórias que ela me contava sobre os últimos anos de escola dela. Um em particular em que ela ameaçou de morte o professor de química dela para que ele a aprovasse e ela pudesse se formar com o resto da turma. Segundo ela, química não entrava em sua cabeça de jeito nenhum. É claro que não posso dizer com plena certeza de que isso realmente é verdade e aconteceu, mas se eu fosse vocês, eu não duvidaria da Srª Minha mãe.

Hoje eu achei umas agendas antigas do meu ginasial e por diversão fiquei lendo meu histórico de recadinhos de professores. Minha mãe assinava todas, sem exceção. Cada uma de um jeitinho peculiar.

"Sr. Reponsável,
O aluno esqueceu o material de Língua Portuguesa.

Meu filho é um irresponsável.
ass: MAMÃE"

"Sr. Responsável,
O aluno trouxe o exercício incompleto de Matemática para o dia tal.

Só esganando ele...
ass: MAMÃE"

"Sr. Responsável,
O aluno esqueceu a apostila de Português em casa outra vez.
Peço providências.

Vou comprar memoriol pra ele.
ass: MAMÃE"

"Sr. Responsável,
O aluno não fez a tarefa de Matemática.

Este é um dos vários recados. Já chamei sua atenção, só esganando. Prometo fazê-lo.
Outras sugestões estou aceitando.
ass: MAMÃE"

Entre outros recados.

E esse é o tipo de coisa que eu tive que aturar na minha infância. E não adiantava dizer que eu não ia levar aquele tipo de assinatura. Primeiro porque eu precisava dela para entrar na escola e segundo porque eu recebia um "Vou te meter a porrada se você não levar isso" se eu me recusasse. É claro que o meu constrangimento quando mostrava a agenda com a assinatura do responsável de volta para os professores, pensando bem, no fundo deveria ter sido minha verdadeira punição.

Mamãe é demais.

6 de fev. de 2012

Aquele do pôr-do-sol

Sempre achei meio ridícula essa história de bater palmas quando o sol se põe. Dá para citar uma infinidade de situações  que desperte em nós essa necessidade cultural de bater palmas. Em aniversários a gente bate palma, no final de um espetáculo teatral a gente bate palma. Em simpósios, apresentações em geral, enfim. Mas o pôr-do-sol? O que tem de especial no por do sol? É bonito? É, mas o sol se pondo dá pra ver todo o dia. É de tade, tá todo mundo acordado! Não chega a ser um nascer do sol que a gente ainda tem que ter o trabalho de acordar de madrugada pra conseguir ver como é.

Ontem mesmo eu fui à praia com as amizades pra tomar sol e um banho de mar. O que é uma mentira deslavada já que o mais fundo que cheguei perto da água foi até o calcanhar e nem tirar a camiseta eu tirei. Quando vou à praia só falo inglês e finjo ser gringo. Por voltas das sete horas da tarde não deu outra. A praia inteira de pé numa salva de palmas ao longo da despedida do Senhor Sol.

Por coincidência uns minutinhos antes tinha me distanciado das amigas para dar uma volta com o bofe pela praia e quando resolvemos voltar nos deparamos exatamente de frente para Ipanema inteira gritando, assoviando e se esgoleando pelo sol. Baixei a Miss Brasil na hora.

"Obrigada, gente! Obrigada! Eu amo vocês!" eu proclamava sorrindo, acenando de volta para todos eles.

Uma gordinha delícia super simpática logo em frente foi a primeira a dar uma risadinha. O momento meio que fez o meu dia.

4 de fev. de 2012

Aquele do fofo

"Alison, você acha Beutrano bonito?" perguntou Sicrano sobre Beutrano para mim certa vez. Sicrano e Beutrano eram melhores amigos.

"O Beutrano? Er... Ah, ele é fofo" eu respondi.

"Fofo? O que quer dizer fofo?"

"Ué... fofo".

"Tá, mas você ficaria com o Beutrano?" ele insistiu.

"Não".

"Por que?"

"Porque ele é fofo".

21 de jan. de 2012

Aquele da casa dos horrores

Há algum tempo atrás lembro de ter ído numa casa de horrores que estava rolando num shopping. Estava no meio de um encontro com um ex-peguete na época e lembro que do nada nós resolvemos entrar na tal casa dos horrores pra ver como era. Cá entre nós que o cara na verdade só queria mais uma desculpa além do cinema pra ficar no escurinho comigo, mas enfim. Resolvi ir.

Pagamos acho que uns vinte reais para entrar naquela bosta. Vinte reais. E a única coisa de que eu realmente lembro desse "show" foi de ter visto um anão com uma máscara de ET de varginha correndo atrás de mim com um bastão de baseball e me falando pra seguir adiante quando eu me recusei a correr dele. O resto do "show" pra ser bem sincero eu nem lembro. É aquele tipo de situação que a gente pensa "Eu paguei pra ver isso?" e sai com a cara assim:

Mas enfim.

Esses dias descobri que a atração também veio pro shopping da minha cidade.
Pelo menos tá gerando emprego, né.

18 de jan. de 2012

Aquele do "seu filho"

Papai tem uma maneira engraçada (ao meu ver) de tratar de coisas sobre mim que não lhe agradam muito. Funciona jogando toda a responsabilidade patriarcal para as costas da minha mãe, como se ele não tivesse feito o trabalho dele há vinte anos atrás produzindo esperma.

Imagino que isso deve ser um procedimento mundial da figura do pai. Ainda mais com aqueles pais religiosos que foram criados pela avó e que tentam fazer os filhos engolirem suas próprias noções do que é ter uma boa vida de bons costumes.

Quero dizer.

Quando eu parei de cortar o cabelo baixinho e papai percebeu que eu realmente estava deixando o black power aflorar, ele disse:

"Pai: MADALENA!! VOCÊ VIU QUE O SEU FILHO ESTÁ DEIXANDO O CABELO CRESCER?"

Quando eu coloquei como papel de parede do meu celular uma foto de um cantor.

"Pai: MADALENA!! VOCÊ VIU QUE O SEU FILHO COLOCOU FOTO DE HOMEM NO CELULAR?"

Quando eu depilei minhas pernas pela primeira vez.

"Pai: MADALENA!! VOCÊ VIU QUE O SEU FILHO DEPILOU AS PERNAS?"

Quando eu furei as orelhas, eu esperava o mesmo comportamento, talvez até mais exagerado. Algo como "Só falta você me aparecer com uma saia aqui". Não que o meu pai precise saber que dentro de mim há uma chama acesíssima que me faz morrer de vontade de comprar uma kilt (saia escocesa), mas o motivo de eu ter feito mãe Madalena prometer que não contaria para papai conservador que o filho nada conservador dele estaria furando as duas orelhas era para eu ver de perto a insatisfação nos olhos dele quando eu chegasse em casa de brincos.

Mas.nenhuma.reação.aconteceu.

E foi aí que caiu a minha ficha. Depois de papai afirmar as suspeitas da sexualidade do filho, nada mais realmente o surpreende.
Me sinto como uma criança de quem tiraram o doce.

31 de dez. de 2011

Aquele de 2011

Dois mil e onze foi um ano meio merda. Me estressei com a vida, não sabia o que fazer com minha carreira, não sabia que direção queria ir, sentia vontade de nada. Achei dúvidas na minha cabeça que eu nem sabia que existiam e metas que pensava não ter vontade de tentar seguir. Se possível me atolei mais ainda em dívidas e teve dias que me sentia emocionalmente com o peso do chão sobre mim com mais toneladas e toneladas de fezes por cima. Mas eu superei.

Conheci muita gente nova. Trabalhei com muita gente bacana e descobri que talvez eu possa servir para alguma coisa nesse mundo se eu fizer o esforço necessário. Encontrei o pai da minha futura filha e estou quase decidindo o que quero da vida.

Dois mil e onze pareceu um ano que ia demorar para acabar. Acho que porque no quesito obrigações e estudos foi quase tudo uma grande bosta mesmo e o que eu mais queria era um peso a menos nos meus ombros pra relevar a chatice e falta de interesse que foi a faculdade esse ano. Quando eu percebi já era Natal.

Aliás, nesse último Natal eu não sei o que foi melhor. Se foi minha família inteira conhecendo meu namorado cujo sogro o proibiu de pisar na minha casa. Se foi a avó do Bu Couto no telefone me desejando Merry Christmas e melhoras da tuberculose que ele inventou que eu tinha desenvolvido. Ou se foi meu tio, tadinho, extrapolando os limites do bom senso e me dando de presente um livro do Silas Malafaia. No fim eu acho que o melhor mesmo foi ter ganhado da minha avó o perfume Diva Chic, que eu nem conhecia. Acho que ela certou totalmente na escolha.

Para dois mil e doze eu quero menos estresse, menos dúvidas, menos dívidas (se Zeus quiser) e mais dinheiro no bolso.

De quebra, desejo um ano novo bem neurótico pra todos vocês.

20 de dez. de 2011

Aquele do primeiro nome

Eu sempre tive um problema sério com meu primeiro nome: Jorge. Eu nunca gostei dele. Talvez esse meu repúdio seja pelo fato de eu ter crescido sendo chamado de Alison para não haver confusão com o outro Jorge da família, não sei. Só sei que a minha vida toda eu tentei fazer as pessoas me chamarem de Alison porque eu nunca achei que Jorge tinha lá muito a ver comigo. Por causa disso, geralmente pessoas do círculo escola/faculdade me chamam de Jorge e o resto me chama de Alison, porque eu me apresento como Alison.

Enfim, meu problema com Jorge acaba gerando certas irritações do tipo: Gente que me conhece como Alison eu não deixo me chamar de Jorge, e quando me chamam eu acabo respondendo de forma mal criada. Meu pai e meu namorado, por exemplo, fazem um pouco disso pra me irritar.

Hoje eu cheguei em casa e meu namorado veio falar comigo no facebook.

"Namorado: Oi Jorge.
Eu: JORGE MEU CU.
Namorado: É a Célia, mãe do Anderson."

Morri de vergonha.

15 de dez. de 2011

Aquele do mau humor

Sabe quando você acorda de mau humor? E parece que o universo está em conspiração e você sente vontade de matar alguém? Pois é, às vezes eu acordo assim. Por mais simples que a palavra possa ser, eu chamo isso de estresse. E o estresse, gente, é a TPM do homem.

Tudo começa quando meu intestino não funciona de manhã. Isso me irrita profundamente. Não fazer cocô de manhã é um sinal dos deuses de que eu vou ficar estressado pelo resto do dia.

Daí acontece de tudo. Eu abro o armário. Nada decente pra vestir. Olho minha cara no espelho. Não dormi direito, estou com a cara péssima. Aliás, geralmente nesses dias de amargura emocional a chance de eu ter acordado de uma noite mal dormida é bem alta. É quando minha pele acorda um lixo, meu cabelo pior ainda e eu acabo sendo forçado a ficar o dia inteirinho com aquela aparência descabelada que me faz querer amaldiçoar minha herança genética. Por causa disso, inclusive, eu acabo restringindo visitas ao banheiro ao extremamente necessário para não ter que passar por um espelho e ver o reflexo da minha cara de zumbi muitas vezes ao dia..

Mas apesar de tudo eu acho que a desgraça jaz principalmente nas relações sociais. Nesses dias eu acabo não falando direito com as pessoas porque tudo e todos me irritam. As pessoas até chegam com simpatia, perguntam se tá tudo bem e eu respondo com um "to ótimo" de cara feia e isso só piora as coisas. Mas isso não é o crucial, o crucial é que SEMPRE tem uma criatura em especial que se acha engraçadinha pra me torrar ainda mais a paciência.
Geralmente essa pessoa é o meu pai.
Aliás, eu diria que noventa e seis por cento das vezes essa pessoa é o meu pai.

Eu estou pouco me lixando se ele não aceita meu modo de vida, se ele me acha irresponsável, mulherzinha, sem cérebro, se ele odeia meu namorado, dane-se todas essas coisas. Por incrível que pareça, eu cresci com a habilidade de ignorar tudo de ruim que o meu pai pensa de mim e seguir em frente de cabeça erguida. Mas hoje, quando eu vi que ele comeu o meu último pudim com cobertura de morango, ah, foi a gota d'água. Isso foi o fim pra mim.

Foi o fim.